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EIXO CONTEXTO

A população deve chegar a 7,5 bilhões em 2018, impulsionada por um verdadeiro tsunami de jovens. O UN Population Fund, da ONU, estima que a população jovem global (10-24 anos) atinge 1,8 bilhões de pessoas esse ano. Se levarmos em conta que a Geração Z (nascidos entre 1994 e 2009) veio para subverter radicalmente os valores que conhecemos, esse tsunami populacional vai afetar substancialmente as bases das relações de troca, pautadas principalmente pelo consumo.

 

Uma mudança em três instâncias vai alterar o perfil de consumo desses jovens e, consequentemente, muitos códigos sociais: capacidade de transmissão de dados (velocidade), linguagem (imagens mais que palavras) e valores (ativismo e novas moedas: o tempo).

 

Para começo de conversa, a ultra velocidade de internet vai aumentar o impacto das informações transmitidas no mundo e, consequentemente, o poder dado a quem as transmite. Graças a essa capacidade, é natural que as principais fronteiras da comunicação, tais como o idioma e os códigos culturais, se flexibilizem e deem espaço para linguagens mais universais. A maioria dos usuários vai optar por imagens e personagens em substituição a palavras como forma de comunicação, um movimento facilmente notado pelo amplo uso de memes e emojis, inclusive já tendo gerado uma Emojipedia. Qualquer semelhança com a era pré-histórica não é mera coincidência, afinal, no cerne da comunicação está a vontade de traduzir pensamentos em símbolos. Trata-se de um resgate da essência da comunicação humana.

 

Essa velocidade e essa universalidade de códigos, que derrubam barreiras cognitivas, acabam também por agrupar pessoas segundo seus valores e preferências. Identificar-se com a causa de outra pessoa (ver relevância nisso) é uma das molas propulsoras da viralização que tão bem caracteriza as redes sociais digitais. Some-se a isso a onipresença de devices móveis, para se chegar a uma verdadeira Era do Ativismo, onde pessoas se concentram com facilidade em torno de interesses comuns e ganham poder de mobilização. Não à toa, essa tendência afeta estruturas sociais importantes, a ponto de oferecer alternativa ao próprio Capitalismo, com economia compartilhada e o chamado Capitalismo Comunitário. Tudo isso só é possível porque estamos diante de gerações de jovens (Millennials, Z e em breve Alpha) que desconfiam das instituições e estão exigindo transparência de empresas e marcas, sob pena de mudar suas atitudes via consumo se não virem um valor social no que as companhias entregam.


Esses mesmos Millennials (nascidos entre 1979 e 1993), junto com os membros da Geração X, também estão sendo acometidos pelos excessos da hiperconexão. Eles estão sendo cobrados a ponderar o excesso de trabalho em que mergulharam, graças ao acesso always on e on demand que a qualidade de transmissão de dados proporcionou. É como se os humanos tivessem absorvido as características das máquinas, uma espécie de machine learning invertido, que nos deixa híper ligados ao que está acontecendo e com medo de perder alguma coisa, o chamado FOMO (fear of missing out). O alerta agora é sobre diminuir a distração para conseguir colocar foco no que realmente importa, o que deve reduzir os níveis alarmantes de ansiedade que a OMS (Organização Mundial de Saúde) tem reportado nos últimos anos.

1.1

Era da Transmissão

Resumo: A substituição da linguagem escrita por imagens e emojis faz cair barreiras cognitivas e amplia a vontade e a capacidade de transmissão de conteúdo. 

Stream Team, em inglês, é o nome que se dá a um grupo de consumidores que são poliglotas das mídias sociais, cidadãos ‘glocais’ (globais em sua localidade) e desbravadores do conhecimento. Eles estão testando o novo filtro do Instagram e organizando um protesto ao mesmo tempo. Por quê? Porque ver o mundo através de um smartphone deu a eles o poder de transformá-lo em um lugar melhor.

Em junho de 2016, cerca de 2 bilhões de pessoas – 32% da população mundial – usavam as mídias sociais regularmente, criando uma incubadora de relações multiculturais e influências simbióticas. Uma das macrotendências identificadas pela WGSN, “Conexão Glocal”, apontou que as pessoas se sentem cada vez mais multilocais: alguém que se identifica e se define por uma fusão de lugares, experiências e culturas. A mentalidade multilocal é influenciada pelo boom das viagens internacionais, mas o principal fator é a ascensão da linguagem visual. Imagens e personagens estão substituindo as palavras e, por consequência, a linguagem, o que derruba as fronteiras cognitivas que restavam na internet. As pessoas falam através de emojis, leem por memes e escrevem com símbolos.

Existe até uma Emojipedia para pessoas que querem se aperfeiçoar na língua dos emojis. À medida que entramos na era da pós-alfabetização, nossas mensagens podem ser mais curtas. Mas para os atuantes na era da transmissão, elas têm a mesma força. De alguma forma, as transmissões ao vivo estão devolvendo o poder para as pessoas. Qualquer pessoa com um smartphone pode transmitir ao vivo um episódio de injustiça para o mundo.

O assassinato de Philando Castille por um policial, em Minnesota, foi transmitido ao vivo por sua namorada, Diamond Reynolds. Em um comunicado, Mark Zuckerburg afirmou que “embora nunca mais deseje ver um vídeo como o dela, o vídeo nos lembra porque criar um mundo conectado e sem barreiras é importante, e o quão longe ainda estamos desse objetivo".

A campanha WhatsCook da Hellman's conectou consumidores e chefes profissionais por meio do Whatsapp. Os participantes enviavam seus números pelo site da empresa e depois recebiam uma consultoria particular de um chef.

1.2

Ativismo Analógico

Resumo: A Geração Z vai liderar a ‘Era do Ativismo’, desafiando as injustiças sociais e ambientais, onde o smartphone é a arma mais poderosa.

A turbulência do cenário político de 2016, assim como suas repercussões, terá efeitos duradouros. A Geração Z vai liderar o que podemos chamar de ‘Era do Ativismo’, desafiando as injustiças sociais e ambientais, ao criar uma nova era em que “o smartphone é a arma mais poderosa”. Isso ficou evidente nessa segunda década do século vinte e um, seja jogando um balde de gelo na cabeça em nome de uma campanha beneficente, seja compartilhando um link de apoio a um novo partido político. Mas a era do ativismo vai além do digital: embora motivado por e organizado em redes sociais, vai acontecer no cenário do mundo físico, analógico. Em 2020, o ativismo local será a nova norma.

Os protestos não são novidade, mas a participação multigeracional é um fator de diferenciação. Das manifestações contra a presidente sul-coreana em Seul aos protestos do Australia Day em Sydney, os Alphas e os Baby Boomers estão unidos no ativismo.

O analista político Derek Thompson observa que "as decisões políticas mais significativas surgem sempre em nível local e estadual". Os Millennials simplesmente não tinham o hábito de ir votar. Um estudo apontou que a idade média dos eleitores é de 60 anos. Depois da campanha presidencial americana em 2016, a maioria dos eleitores, principalmente os Millennials, percebeu a importância das eleições locais.

No Reino Unido, mais de um milhão de jovens britânicos se registrou para votar nas eleições desde o Brexit. Nos EUA, a adesão às ONGs ACLU e League of Women Voters disparou. Nos dois países, as passeatas, os protestos e a participação nos eventos cívicos locais não param de crescer.

Estimulados pela instabilidade econômica e pela polarização ideológica, 54 milhões de mexicanos têm atuado localmente, principalmente em assuntos como alimentação e agricultura. Os protestos civis contra a proliferação da comida "fast-food" nas cidades mexicanas levou os chefs locais a assumirem postos em cozinhas de hotéis internacionais.

 

No Brasil, o smartphone não só foi o responsável pela digitalização das classes socioeconômicas, menos favorecidas, como permitiu a tantos cidadãos, descontentes com a má entrega de serviços básicos, denunciar desde tiroteios (como é o caso dos apps "Fogo Cruzado" e "Onde Tem Tiroteio") até assédio em transporte público (HelpMe). É um tipo importante de inclusão que dá poder ao indivíduo, independentemente do seu acesso a tomadores de decisão ou a serviços de qualidade. Fora isso, o ativismo em sua forma mais óbvia, que vimos nascer em 2013 como o movimento "Vem pra Rua" (difundido pelo Facebook), teve suas semelhanças com o 'pai de todos', a Primavera Árabe (difundido pelo Twitter). Desde então, brasileiros convocam encontros e protestos pelas redes sociais com a certeza do potencial que isso tem para reunir as massas com uma rapidez impressionante. Vimos o poder disso durante a paralisação dos caminhoneiros, em maio de 2018, dessa vez protagonizada pelo Whatsapp.

1.3

Capitalismo Comunitário

Resumo: A economia compartilhada chegou para ficar e segue promovendo mudanças no status quo.

Com uma estimativa de crescimento global de US$ 335 bilhões até 2025, esse segmento tem tudo para causar ainda mais impacto no modelo econômico centrado nas grandes corporações. Boas-vindas ao capitalismo comunitário – um novo modelo econômico que terá efeitos a longo prazo nas regulamentações governamentais, no planejamento cívico e no futuro do trabalho e do desenvolvimento regional. Em países com economias instáveis, a economia compartilhada é uma fonte de renda segura. 

A economia compartilhada está em expansão na América Latina. O Airbnb abriu um escritório no Brasil depois de registrar um crescimento anual de 200% desde 2015. O Rio de Janeiro é a terceira cidade que mais recebe usuários do site, perdendo apenas para Nova York e Paris. Outro gigante do setor, a Uber, emprega na Cidade do México mais de 10 mil motoristas pertencentes à geração do milênio.

1.4

Os Aumentalistas

Resumo: O medo de uma dependência da tecnologia faz um grupo de indivíduos sugerir que vida deve ser otimizada por esses avanços, não consumida por eles.

Gostemos ou não, estamos em um caminho sem volta no que se refere à co-dependência da tecnologia. Os níveis cada vez maiores de vício em smartphones, um declínio nas habilidades sociais e a nossa dependência do GPS (um estudo de 2016 apontou que 67% das pessoas entre 18 e 44 anos não consegue entender um mapa físico) mostram que estamos dispostos a trocar o controle pela conveniência. É aí que entram os aumentalistas, um grupo de indivíduos que defende os avanços tecnológicos, mas quer que a vida seja otimizada por eles, não consumida.

Além das reações do cidadão comum, acionistas e governos estão fazendo pressão: duas empresas de investimento querem que a Apple estude o impacto do uso do smartphone na saúde das crianças, enquanto dois acionistas moveram uma ação contra o Twitter e o Facebook para que as empresas lidem com conteúdo negativo de modo mais responsável.

Estimulado pelas críticas de políticos, cidadãos e mídias, o Facebook está incorporando a empatia. Depois de encomendar uma pesquisa para entender como a plataforma afeta as pessoas, a empresa divulgou que implementará mudanças em seu feed de notícias para 2018. O conteúdo passivo vai diminuir (anúncios, vídeos e artigos) para priorizar as postagens de usuários e seus amigos.

Ao entender que a internet pode promover um senso comunitário, o Linkedin começou a se perguntar e a perguntar aos seus usuários) sobre o propósito que eles têm ao se envolver com um trabalho. As respostas obtidas foram tão únicas quanto os mais de 500 milhões de usuários no LinkedIn. Para alguns, a resposta é um senso de propósito; para outros, uma paixão profunda. Para alguns, é uma maneira de retribuir; para outros, um desejo muito mais pragmático de fornecer. Ms independentemente da motivação, o que a pesquisa descobriu é que ninguém quer estar nessa sozinho: "seja o que for que você esteja fazendo, você quer saber que existe uma comunidade de pessoas para ajudar, apoiar, inspirar e estimular você". Isso rendeu o projeto "In It together" (em português, "Juntos Nessa"): 

In It together

A soma da Inteligência Humana (IH) e da Inteligência Artificial (IA) será o futuro da inteligência. Muitos especialistas acreditam que essa combinação vai levar a um crescimento exponencial da produtividade. Isso pode ser traduzido como a chegada da inteligência aumentada, algo que está por trás da ascensão da indústria neurotecnológica.

Como os aumentalistas impactarão o futuro do trabalho? Novos cargos surgirão, como analistas de ética de automação e desenvolvedores de chatbots interativos. De acordo com o relatório "Emerging Jobs", produzido pelo LinkedIn no ano passado, os mais beneficiados nesse processo serão os engenheiros de aprendizagem de máquinas, seguidos pelos cientistas de dados. Soft skills serão mais valorizados do que nunca.

"Eu acho que o mundo está muito focado em hard skills como ciência da computação, ciência de dados e inteligência artificial. Sejamos claros, essas habilidades são muito importantes. No entanto, a combinação de hard skills com soft skills, como comunicação, pensamento crítico e trabalho em equipe, é mais vital. Essas habilidades são necessárias em todos os trabalhos e são essenciais para o sucesso profissional em todos os setores.”

Anant Agarwal _ fundador e CEO da eDX, um fornecedor maciço de cursos online abertos/ MOOC - para o Linkedin em pesquisa feita com a Capgemini:

A indústria automotiva também está trabalhando nas interfaces da próxima geração. O protótipo B2V, da Nissan, interpreta sinais enviados a partir do cérebro do condutor por meio de um headset que ajuda a antecipar seus movimentos, como virar ou frear.

Eventos esportivos ao vivo estão usando experiências de RA e RV para angariar mais fãs e aumentar a receita de patrocínio. Nos EUA, a liga profissional de beisebol fez uma parceria com a Intel para transmitir os jogos em Realidade Virtual. Os campeonatos da NFL e da UEFA Champions League já estão fazendo testes com a RV, obtendo altos níveis de engajamento.

1.5

Os Novos Céticos

Resumo: A fragilidade da confiança das pessoas nas instituições faz da transparência uma atitude exigida de empresas e de marcas por cidadãos e consumidores.

Em termos éticos, o auge da tecnologia foi 2017. Guerras de propaganda nas mídias sociais, bullying on-line, invasões de dados sensíveis e vazamentos de informação ocuparam as manchetes do mundo todo. Adicione a essa receita a ameaça da automação, questões que envolvem a inteligência artificial e o medo gerado por empresas de tecnologia muito poderosas: o resultado é a fragilidade da confiança das pessoas no sistema. Desde 2016, a Euromonitor detecta em pesquisa que as pessoas estão lendo os rótulos de alimentos e bebidas com mais atenção do que nunca. Transparência torna-se uma atitude default, que as pessoas esperam das empresas e os consumidores esperam das marcas e que, inclusive, passa a fazer parte do seu valor percebido.

 

O CEO da Tesla, Elon Musk, respondeu pessoalmente a um consumidor que reclamava no Twitter e, em seis dias, corrigiu um problema de espera em estações de recarga. Jack Dorsey e Brian Chesky, CEOs do Twitter e do Airbnb respectivamente, também foram ao Twitter para perguntar como poderiam melhorar suas empresas em 2017, iniciando conversas com consumidores de seus produtos e ganhando novos clientes.
 

1.6

Distração Zero

Resumo: Hiperconectadas, as gerações X e Y estão ocupadas demais com produtividade para ter tempo para processar emoções.

David Polgar, expert em mídias digitais, disse durante um TED que "a internet está transbordando de humanos agindo como robôs". Isso é especialmente verdadeiro para as gerações X e Y, que estão ocupados demais para processar as emoções, em meio a um verdadeiro culto à produtividade. A mentalidade de estar sempre conectado ao trabalho causa impactos em nosso bem-estar. É como se os humanos tivessem absorvido as características das máquinas, uma espécie de machine learning invertido. Vivemos em um mundo infinito, onde as coisas nunca terminam. Há sempre mais e-mails, reuniões e prazos, que resultam em pressão para se fazer tudo e levam as pessoas a se sentir desgastadas e distraídas. Em 2019, menores níveis de distração serão essenciais por duas razões: muitas pessoas sofrem com a ansiedade e a maioria quer dedicar mais tempo a assuntos que realmente importam. 

O conceito de "design calmo" para a "internet das coisas (IoT)" é uma tecnologia que se molda ao nosso dia a dia sem que precisemos de um dispositivo ou recurso para usá-la, é a porta de entrada. O design calmo já existe: o Amazon Echo e o Google Home são exemplos disso, assim como os carros autônomos. Usar a tecnologia como um meio para se distrair menos pode soar contraproducente, mas na verdade é questão de saúde.